“A crise dos casais que imigram: o que está por trás das separações?”

 


Imigrar para Portugal põe relações à prova: longas jornadas de trabalho e falta de tempo juntos impulsionam separações entre casais brasileiros






O fluxo de brasileiros que imigram para Portugal continua a crescer, mas junto com as oportunidades surgem desafios que afetam profundamente a vida a dois. Associações de apoio a imigrantes relatam um aumento significativo nas separações entre casais recém-chegados ao país. A pressão económica, o choque cultural, a mudança de papéis dentro da relação e, sobretudo, as longas e conflituais horas de trabalho, que deixam pouco tempo para convivência, estão entre os principais fatores de desgaste.

Especialistas destacam que este fenómeno não é exclusivo de Portugal. Em qualquer país de destino — seja Espanha, Reino Unido, Canadá ou Alemanha — a imigração tende a amplificar tensões já existentes e a criar novas pressões que colocam os relacionamentos à prova.

Quando o trabalho afasta mais do que aproxima

Foi o que aconteceu com Carla e Renato, que deixaram São Paulo rumo ao Porto em 2022.
Eu trabalhava em turnos rotativos num supermercado. Às vezes chegava em casa quando ele estava a sair para o restaurante. Passávamos dias sem nos ver acordados”, conta Carla.
Renato confirma que a falta de convivência foi devastadora. “Quando finalmente tínhamos tempo, estávamos exaustos. As conversas viravam discussões.”
A diferença no ritmo de adaptação profissional — ela empregada rapidamente, ele meses à procura — acelerou o desgaste. O casal separou-se um ano depois da chegada.

História semelhante viveu Marta e Luís, que trocaram Belo Horizonte por Lisboa.
Ele fazia horas extras todos os dias na construção civil. Eu ficava sozinha, sem amigos, sem família, sem ele”, relata Marta.
Luís admite que não percebeu o impacto da ausência. “Achava que estava a fazer o melhor para nós, mas acabei por me afastar sem querer.”
A solidão, somada ao choque cultural e ao custo de vida elevado, tornou a convivência insustentável.

Casais brasileiros enfrentam desafios em várias regiões de Portugal

Foi o caso de Helena e Ricardo, que se mudaram do Rio de Janeiro para Faro.
Eu trabalhava na hotelaria, ele na área de entregas. Horários completamente opostos. Durante meses, só nos víamos ao domingo — e mesmo assim, cansados”, conta Helena.
Ricardo acrescenta que a pressão financeira os levou a aceitar tudo o que aparecia. “Ganhávamos melhor do que no Brasil, mas não vivíamos. Só trabalhávamos. A certa altura, deixámos de ser um casal.”
A relação terminou após dois anos no Algarve.

Outro exemplo é o de Patrícia e Nuno, que saíram de Curitiba para viver em Braga.
Eu fazia noites num lar de idosos, ele trabalhava de manhã numa fábrica. A nossa vida era desencontrada”, diz Patrícia.
Nuno admite que a falta de tempo juntos criou uma distância emocional difícil de recuperar. “Quando tentávamos conversar, parecia que já não falávamos a mesma língua — e não era o português de Portugal.”
O casal decidiu separar-se e regressou ao Brasil em momentos diferentes.

Quando a crise vira oportunidade de união

Apesar das dificuldades, há casais que conseguem transformar a pressão em força.
É o caso de Joana e Felipe, que se mudaram de Recife para Coimbra em 2020.
Ele trabalhava 12 horas por dia numa cozinha, eu passava o dia sozinha, sem dominar o sotaque e sem amigos. Chegámos a pensar em voltar separados”, lembra Joana.
A mudança veio quando decidiram reorganizar rotinas e procurar apoio psicológico comunitário. “Começámos a reservar um dia por semana só para nós. Sem desculpas”, afirma Felipe.
Hoje, dizem sentir-se mais unidos do que antes de emigrar.

Outro exemplo positivo é o de Sofia e Daniel, que trocaram Salvador por Aveiro.
Eu trabalhava por turnos, ele cuidava da casa e das crianças. Quase não tínhamos tempo juntos”, conta Sofia.
Daniel admite que a falta de convivência criou distância emocional. “Parecíamos colegas de apartamento. Tivemos de reaprender a ser um casal.”
Com diálogo e ajustes na rotina, conseguiram recuperar o equilíbrio e fortalecer a relação.

Um fenómeno global, mas não inevitável

Especialistas reforçam que a imigração, independentemente do país de destino, não cria problemas do zero — apenas amplifica tensões já existentes. As longas jornadas de trabalho, a falta de tempo juntos, a ausência de rede de apoio e o choque cultural tornam-se catalisadores de conflitos. Ainda assim, histórias como as de Joana e Felipe mostram que, com comunicação, reorganização da vida quotidiana e apoio emocional, é possível resistir à pressão.

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